Não-amor
Queria escrever uma história de amor, mas acho
que não há mais nenhum pingo de amor em mim. No meio de todo o caos lá fora e
no caos de dentro, eu me perdi e me esvai de amor. Nada mais circula nessas
minhas veias além de sangue e apatia. O cansaço pesa nas minhas pálpebras e faz
minhas pernas doerem, tira minha esperança na vida, tudo que eu consigo é só
mais letargia ainda.
Deus sabe que eu tentei, meu Deus! Como eu
tentei. Homens, mulheres, qualquer outro gênero que me aparecesse, beijos
apaixonados regados a muito álcool ou não, pessoas verdadeiramente
interessantes, outras nem tanto, outras tão entediantes que me fizeram pensar
que eu poderia estar assistindo Sabrina em vez de estar ali fingindo gostar de
algo tão monótono.
Mas acho que finalmente acabou, não há mais nada
aqui dentro de mim que grite por um amor romântico, pelo menos não um duradouro,
que dure uma, duas, três noites, mas não muito mais do que isso, acho que é
fisicamente impossível eu me interessar por mais tempo, logo logo me entedio.
Mais cedo ou mais tarde, me pego olhando para o rosto da pessoa a me questionar
o que estou fazendo ali.
Não há mais espaço aqui para isso e não sei dizer
se sinto falta, não sinto como se eu estivesse perdendo nada, não me enchem os
olhos os relacionamentos dos outros, pelo contrário, penso também o que
estariam os outros fazendo ali. Coisa mais sem cabimento insistir tanto em algo
que não lhe traz nada de bom, nenhum suporte emocional, nenhuma felicidade mais
duradoura, só estresse, alegrias momentâneas e sexo mediano, consigo isso tudo
menos os estresses em meus relacionamentos meia-boca.
Não posso dizer que me sinto satisfeita e
completa, mas quando foi que já me senti assim? Se alguma vez, por algum acaso,
já me senti assim, posso ter certeza de que não foi verdadeiro, provavelmente
me forcei ou me enganei e vivi andando por aí tal como Macabéa, tentando muito
acreditar que eu era feliz. Hoje me sinto como Macabéa após o atropelamento, quebrada,
morta, porém livre, finalmente.
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