Postagens

Mostrando postagens de 2024

Mantis demorosa

Quando certa manhã Bárbara acordou de sonhos intranquilos, decidiu matar todos os homens com quem já havia transado. Obstinada, levantou-se abruptamente de sua cama, escovou seus dentes com força olhando firmemente para o espelho em sua frente com olhos pesados cheios de olheiras que já haviam visto de tudo. Um cuspe certeiro dentro do ralo da pia. Eles me pagam. Fez seu café como o habitual, preto, forte, sem adoçar. Entornou a xícara de uma só vez. Um leve espasmo na boca ao engolir o líquido quente lhe forneceu um ar ainda mais maníaco. A pálpebra também tremia, incessantemente. Eles vão ver só. Vestiu sua blusa preta, sua calça preta, suas meias rosas com desenhos de unicórnios e arco-íris e seus coturnos pretos. Pegou a carteira, as chaves e o celular, um casaco porque poderia ficar frio, amarrou-o na cintura e saiu porta afora rapidamente, deixando a porta do apartamento bater com um estouro atrás de si. Voltou e abriu a porta novamente assustada: esqueceu de dar um beijinho de d...

Estranho

Bem-vindo ao Estranho, um mundo onde ser estranho é algo bom. Não importa se seu cabelo é preto ou roxo, se você é alto ou baixo demais, magro ou gordo em demasiado. Aliás, o mediano é que é estranhado. A pior coisa nesse mundo seria ser igual a todo mundo. Modificações corporais extremas são incentivadas. Quanto mais peculiar e mais específico seus gostos são, melhor. Os rejeitados de outros mundos se unem aqui para viverem em paz, para serem celebrados e reconhecidos em seu esforço de não se encaixar. O esquisito e o grotesco encontram seu lar, seja nojento, seja asqueroso, bote medo em quem passar. Todos são livres para se expressarem através do feio, da destruição, do terror e do horror. Não há religião, não há regras e não há governo. Torne-se detestável e ingovernável, veja se alguém aqui se importa. Seja tudo o que você quiser, só não seja mais do mesmo. Livre-se do belo antes de adentrar por nossas terras amaldiçoadas e você ficará bem. Ou talvez não. O clima aqui é sempre cinz...

Taverneira maldita

  Marsala se encontra novamente sentada em um banquinho duro de uma bancada em uma taverna qualquer com um ambiente duvidoso e porcamente iluminado bebendo sua bebida favorita: uísque barato. A sua energia já anda baixa há algumas semanas, mas ela vem empurrando esse momento inevitável com a barriga porque o detesta com todas as forças. Ela precisa achar algum homem para sugar as energias, mas para isso deve iniciar qualquer tipo de contato sexual com tal homem, o que sempre lhe é penoso ou, no mínimo, tedioso. Séculos e séculos sem fim sobrevivendo apenas para experimentar sexo meia-boca com homens insossos que mal lhe forneciam a energia sexual necessária de tão ruim que era a transa. Mas que existência miserável! Suspira. Já um tanto bêbada, ajeita seus longos cabelos negros e cacheados com as mãos tirando-os do rosto para procurar pela taverna por seu próximo alvo, mas volta rapidamente sua atenção ao copo de líquido marrom reluzente à sua frente. Nada de interessante par...