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Mostrando postagens de 2022

Heresia/sacrilégio

Eu quero que você me adore Nem que seja por um só momento Nem que seja só por uma noite Que você acenda uma vela em meu altar  Que entoe cânticos em meus ouvidos Que eu seja sua religião Que apenas naquele momento Você se torne pagão e não mais cristão  E ofereça a mim a sua devoção  E dance em volta da minha fogueira Enquanto ri maniacamente Me ofereça sacrifícios Sacrifique-se a si mesmo  Tudo em meu nome. Que amanhã nem volte mais, Mas que hoje eu seja sua Verdade E se doe de carne e espírito para mim Para que eu faça o que quiser com sua alma E depois te force a rodar o mundo Pregando minha doutrina para todos Pra que também se devotem a mim Por uma noite apenas Ou por toda a eternidade sem fim

Nunca tão só

  Deitada na cama, afogada na solidão da escuridão, tenho o pressentimento de que não estou tão só. Ouço alguns passos leves, uma sacola se balançando, arranhões pelas paredes, uns rosnados suspeitos... Logo, vários pares de olhos cintilantes começam a surgir no meio do escuro brilhando e me fitando em julgamento. Os gatos estão com fome.

A porta estranha

  Ela se aproximou de uma porta estranha e, nervosa, pegou a chave em seu bolso. Ela respirou fundo, destrancou a porta, parou e, então, a abriu. Para seu horror, ela viu milhares e milhares de baratas circulando por todos os cantos, todas as paredes, umas por cima das outras, dava para ouvir suas patinhas correndo de um lado para o outro, dava para sentir aquele cheiro forte indescritível emanando delas. E ela ali parada, atônita, apenas a observar o movimento desses insetos tão asquerosos, tentava se lembrar que porta era aquela que ela adentrou e por qual motivo a chave para tal porta estaria em seu bolso, tudo parecia estranho e desconexo demais, mas antes que ela pudesse tirar alguma conclusão, algumas baratas começaram a subir por suas pernas, outras começaram a voar em sua direção se emaranhado em seus longos cabelos e se esperneando perdidas em seus cachos, ela se debatia e tentava afastar as baratas em vão, tentava gritar, mas não conseguia, sua voz apenas não saía. Virou-...

Divagações sobre relacionamentos em uma sexta-feira quente e chuvosa.

  Sexta-feira, a noite é quente e chuvosa, nada de novo sob o céu desse Rio de Janeiro, me encontro largada no sofá com os olhos estatelados vidrados no nada, apenas apreciando o meu cansaço pós-trabalho que me dói as pernas, me dói as costas e me dói a mente, e a chuva caindo lá fora. No telefone celular, chega uma mensagem, queria te dar uns beijos hoje, diz a mensagem, e começo a me questionar o que teria acontecido no mundo, que tipo de situação bizarra teria que acontecer, para eu sair do meu pequeno Cachambi até Niterói, de onde é o remetente da mensagem, de noite, cansada, sozinha, na chuva. A vontade é de responder com o que tenho a ver? Mas a mente divaga antes que eu possa tomar a decisão do que responderei. Começo a pensar que talvez essa vida de solteira que desejei tanto após onze anos de longos relacionamentos sérios, longos eu digo no sentido de tediosos mesmo, talvez, não seja mais para mim. Me encontro velha, cansada e sem saco para nada, aquela minha vontade de me...