Espelho
“E quando se olha no espelho é você quem me vê”
Motor – Pitty
Não
consigo me olhar no espelho, todas as vezes que me olho lá está ela, uma mulher de
olhos cansados, cabelos embaraçados, completamente derrotada, não mais a
reconheço, mas foi alguém que eu costumava amar. Alguém que era bela, com ótimo
senso de humor, com um estilo maravilhoso e uma interessante visão da vida, alguém
em quem eu me espelhava e me via junto para sempre. Eu a amei com todas as
forças, eu tentei tanto, eu me esforcei tanto, mas quando vi pedaços de mim
nela, me assustei. Me afastei. E ela me deixou ir. Meu deus, por que não lutou
mais por mim? Ela que me parecia tão forte, não teve mais forças para insistir
em mim, voltou a ser aquela casca, oca e sem vida de quando nos conhecemos.
Tentei com todas as forças não mais a ver, esquecer completamente que um dia já
esteve em minha vida, mas todas as vezes lá estava ela, me olhando no espelho,
os olhos cansados, marejados. Tive raiva, aqueles olhos cansados e um sorriso
forçado me seguiam. Mas o tempo passou e ela parecia estar cada vez mais longe.
Consegui me distrair com outros risos, outros timbres, mas quando menos esperava
lá estava ela novamente, como se estivesse todo esse tempo ainda me observando,
eu só apenas não a tinha notado.
Com
mais um tempo, acabei me acostumando com aqueles olhos cansados me fitando, mas
não consigo encará-los, ainda me dói o futuro perdido, tudo aquilo que nós
podíamos ter sido. Me desculpem, olhos cansados, nunca mais poderei ver seu
brilho, a esperança que ainda guardam lá no fundo, não tenho coragem de me
olhar no espelho e me reconhecer e ser tudo aquilo que tanto tentei esconder,
ser tudo aquilo que tanto me ensinaram que era errado. Tenho medo de me olhar
no espelho e ela ainda estar lá, me esperando voltar, me aceitando como eu sou,
meu eu que passei tanto tempo tentando me provar contrário, evidenciando todo
esse tempo perdido que nós poderíamos ter tido e ainda dizendo carinhosamente
para eu não me culpar, que não tínhamos antes as informações que agora temos,
para eu me perdoar e ser, contrário à minha crença, bondoso comigo mesmo.
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