Divagações sobre relacionamentos em uma sexta-feira quente e chuvosa.

 

Sexta-feira, a noite é quente e chuvosa, nada de novo sob o céu desse Rio de Janeiro, me encontro largada no sofá com os olhos estatelados vidrados no nada, apenas apreciando o meu cansaço pós-trabalho que me dói as pernas, me dói as costas e me dói a mente, e a chuva caindo lá fora. No telefone celular, chega uma mensagem, queria te dar uns beijos hoje, diz a mensagem, e começo a me questionar o que teria acontecido no mundo, que tipo de situação bizarra teria que acontecer, para eu sair do meu pequeno Cachambi até Niterói, de onde é o remetente da mensagem, de noite, cansada, sozinha, na chuva. A vontade é de responder com o que tenho a ver? Mas a mente divaga antes que eu possa tomar a decisão do que responderei. Começo a pensar que talvez essa vida de solteira que desejei tanto após onze anos de longos relacionamentos sérios, longos eu digo no sentido de tediosos mesmo, talvez, não seja mais para mim. Me encontro velha, cansada e sem saco para nada, aquela minha vontade de me conectar e socializar com pessoas já quase não existe mais, desgastada por toda essa estupidez latente existente no mundo inteiro. Além disso, aparentemente, um encontro, conhecer alguma pessoa ou sexo casual hoje em dia significa me enfiar na casa de um completo desconhecido que eu só vi por foto e que trocou duas palavras comigo, senão menos. Veja bem, minha neura não permite. Não dá mesmo para eu sair sozinha da minha casinha confortável em direção a um abismo desconhecido e potencialmente perigoso e, na melhor das hipóteses, só chato, não me importa qual tipo de sexo tenham me prometido, outra coisa que também não me enche os olhos já que o prometido nunca é cumprido, no meu caso pelo menos, não sei, talvez o problema seja eu. Me pego sentindo falta de uma conexão mais profunda, de umas bebidas, uma conversa boa, umas piadinhas escrotas... e, assim, minha mente vai para esses lados de um relacionamento mais sério, assim eu conseguiria, talvez essa conexão mais profunda, mas logo me pergunto se já tive mesmo isso em algum dos meus relacionamentos anteriores, conexão? Ok, talvez. Bebidas? Não, um não gostava de beber, o outro não gostava de beber comigo, com qualquer outra pessoa, sim, menos comigo. Conversa boa? Quando não levava a uma discussão, coisa que era frequente, mas que eu não me importaria se a pessoa não ficasse com ódio mortal de mim toda vez, talvez. Piada escrota? Acho que sempre foi mais da minha parte, isso quando não roubavam minha piada e falavam mais alto para os outros rirem, sim, guardo mágoa disso até hoje e me aconteceu quando eu era adolescente, não ligo, sou capricorniana rancorosa. Só nisso, já dei uma titubeada, não tá me parecendo nada bom, mas não é só porque meus relacionamentos passados foram assim que os futuros terão que ser também. Mas aí me pego pensando também em outras situações, que sempre serão atuais na minha vida, que já foram problemas para alguns parceiros, e que não acredito muito que haja alguma pessoa no mundo que também não tenha alguns desses mesmos problemas. Entre eles, estão: meu filho, sim meu filho demanda minha atenção, não entendo muito esse problema não e me recuso a desenvolver mais essa questão, meu filho existe e ele requer cuidados, e infelizmente tem muita gente que tem problema com isso por mais absurdo que isso pareça para mim; meu trabalho, meus estudos, minha família e meus amigos vêm antes do meu relacionamento, sinto muito, isso não vai mudar, existe alguém que quer ser o quarto ou quinto (se eu fizer a lista acho que surge mais coisa aí na frente) na fila de prioridades?; Eu não bebo com muita frequência, mas quando eu bebo, eu bebo bastante, e algumas pessoas acham isso ruim, em vez de achar encantador o fato de que fico dando em cima de todo mundo e falando, literalmente, qualquer coisa que venha à minha cabeça; a pessoa pode não gostar dos meus amigos, o que é um absurdo, eu sei, porque eles são maravilhosos, mas já me ocorreu; algumas vezes eu passo noites inteiras com meus amigos bebendo, e bebendo muito, bem longe de casa e só volto umas oito horas da manhã me arrastando cheia de ressaca, e isso para algumas pessoas é inaceitável?; quase certeza que não sou monogâmica; o sexo pode nunca encaixar, e eu vou ter que ficar longos períodos com um sexo chato e insatisfatório; minha casa tá sempre bagunçada; sou feminista demais (o que isso quer dizer? Nunca saberemos); meu filho atrapalha, não espera, essa eu já falei. Enfim, posso colocar aqui mais uma dúzia de problemas irrelevantes que para a maioria das pessoas é uma falha absurda no meu caráter que tem a capacidade de estragar tudo que eu traga de bom para um relacionamento.

Com isso, concluo que tenho uma, e apenas uma, opção: continuar solteira, sozinha e sem sexo para o resto da minha vida enquanto a chuva cai lá fora. E isso continua sendo melhor que qualquer relacionamento que já tive.

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