A porta estranha
Ela se aproximou de uma porta estranha e,
nervosa, pegou a chave em seu bolso. Ela respirou fundo, destrancou a porta,
parou e, então, a abriu. Para seu horror, ela viu milhares e milhares de
baratas circulando por todos os cantos, todas as paredes, umas por cima das
outras, dava para ouvir suas patinhas correndo de um lado para o outro, dava
para sentir aquele cheiro forte indescritível emanando delas. E ela ali parada,
atônita, apenas a observar o movimento desses insetos tão asquerosos, tentava
se lembrar que porta era aquela que ela adentrou e por qual motivo a chave para
tal porta estaria em seu bolso, tudo parecia estranho e desconexo demais, mas
antes que ela pudesse tirar alguma conclusão, algumas baratas começaram a subir
por suas pernas, outras começaram a voar em sua direção se emaranhado em seus
longos cabelos e se esperneando perdidas em seus cachos, ela se debatia e
tentava afastar as baratas em vão, tentava gritar, mas não conseguia, sua voz
apenas não saía. Virou-se de volta para a porta na tentativa de escapar, mas a
porta não estava mais lá, era apenas mais uma parede lotada de baratas andando
e correndo desordenadamente num frenesi infernal. Mais e mais baratas se
entranhavam em suas roupas, em seus cabelos, em seus sapatos, as paredes se fechavam
e, por fim, conseguiu soltar um grito liberando todo o seu desespero. O grito
foi tão alto, tão forte e tão amedrontador que acabou acordando estremecendo em
sua cama. Deu um suspiro de alívio, fora tudo apenas um terrível pesadelo. Assustadoramente
realista, mas não passava de um sonho, coisa de sua cabeça, agora estava segura
na realidade. O mundo real, aquele que já está no terceiro ano de uma pandemia
mundial, aquele mesmo passando pela decadência do capitalismo, regado de
desastres naturais, crises econômicas e políticas e boçais no poder dando voz a
todo e qualquer tipo de idiota incoerente. Fechou os olhos de novo: talvez as
baratas me aceitem de volta.
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