Phasmophobia
Chegou o dia da mudança, depois de muita procura, eu finalmente tinha
achado a casinha perfeita em um lugar afastado de tudo e de todos que cabia no
meu orçamento. Finalmente, teria paz.
O dia inteiro foi bem corrido e cansativo, e as caixas ainda se
amontoavam por todos os cômodos da casa que já vinha com alguns móveis velhos
dos antigos donos. A casa toda tinha um ar meio macabro, ainda mais agora sem a
luz do sol. Alguns cômodos não tinham lâmpadas, os móveis antigos cobertos com
lençóis empoeirados, algumas teias de aranha aqui e ali, o som da mata lá fora,
tudo isso junto começava a criar um pequeno frio em minha barriga, que logo
descartei, besteira minha, pensei.
Virei em um corredor e dei de cara com uma foto bem sinistra pendurada
na parede, nela, dois velhinhos e uma criança claramente endemoniada, a coisa
começava a ficar séria.
Decidi, então, dormir, minhas sinapses não estavam em sua condição
normal obviamente, pois já estava certa de que a casa era pelo menos um pouco
assombrada. Chegando ao quarto, tirei o lençol velho de cima da cama,
espalhando poeira para todos os cantos, a rinite atacando, os olhos vermelhos e
coçando, o nariz escorrendo, dei um espirro, esfreguei os olhos e me deparei
com um tremendo rato morto bem no meio da cama. Evidentemente, obra de algum
fantasma querendo me pregar uma peça. Certeza de que aquela criancinha do
quadro com o demônio no corpo tinha voltado para perturbar quem quer que
ousasse pisar ali na antiga casa dela. Dei um grito bem alto, um berro
pavoroso, agudo, horripilante. Tudo em vão, ninguém me ouviria aqui nesse
lugarzinho isolado dos infernos. Depois do grito, vi um vulto pequeno correndo
desembestado pelo corredor passando pela porta do quarto. A criança do
submundo, provavelmente. Com o lençol empoeirado e manchado nas minhas mãos, eu
não conseguia me mexer. Olhava para o rato na cama, olhava para a porta do
quarto e pensava: meu deus! Vão me encontrar morta junto a um rato meio
decomposto e um lençol com uma mancha amarela supersuspeita, não posso morrer
assim.
Reuni todas as minhas forças restantes, me apegando à vontade de não morrer em tais circunstâncias – dividir os vermes que me comeriam as carnes podres do corpo com um rato em um quarto sujo me parecia muita humilhação – fui, então, caminhando lentamente em direção à porta. Bem devagar, fui passando pelo vão da porta, me agarrando à parede como se ela pudesse me fornecer algum tipo de proteção, uma estabilidade pelo menos. De repente, todas as luzes se apagaram, passos leves no chão de madeira se aproximavam de mim e eis que surgiram dois grandes olhos redondos amarelos da criança fantasma me fitando sem parar e sem piscar um só momento, o medo alastrando ondas geladas pelo meu corpo, minha face pálida grudada na parede fria, o estômago dando voltas em si mesmo, a ânsia subindo pela garganta e a força escorrendo corpo abaixo pelas extremidades, inspiro bem forte e dou outro grito, dessa vez bem mais fraco que vai diminuindo se esvaindo aos poucos até se tornar um pequeno a desafinado. A criatura, então, ainda me encarando, grita de volta. Bem, não grita, na verdade, ela mia. Começo a achar suspeito, não sabia que fantasma miava. As luzes se acedem de novo, e, em minha frente, está um gato preto bem peludo com grandes olhos amarelos me olhando e me julgando. Aparentemente, agora eu tenho um gato.
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