23 Gatos pretos

 

Quando certa manhã Helena acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama rodeada de gatos. O estranho disso tudo era que Helena não tinha gatos, nunca teve gatos, nunca nem gostou de gatos. Ainda assim, agora sentada em sua cama, estava na companhia de cinco gatos, todos pretos, alguns a fitando sem parar com seus grandes olhos amarelos, e outros apenas dormindo tranquilamente enrolados em si próprios e parecendo incomodados à medida que ela se mexia para levantar.

Saiu de sua cama devagar e cuidadosamente com medo de desagradar algum dos bichinhos misteriosos para poder ter uma visão geral do que estava acontecendo na tentativa de entender o que diabos estava acontecendo ali. Tentou espantar os gatos abanando as mãos e entonando “xô, xô”, bem de longe ainda com um leve receio dos bichanos se enfezarem e corressem atrás dela, mas isso não teve efeito nenhum sobre os gatos que continuavam ali como se nada estivesse acontecendo e como se sempre estivessem ali. Com um “xô” mais alto e mais prolongado e com movimentos exacerbados das mãos conseguiu uma mínima reação: um dos gatos a olhou e soltou um singelo miado quase imperceptível.

Saiu do quarto batendo os pés, já indignada com tais gatos estranhos na sua cama, pensou em pegar um balde de água para jogar neles, aí sim iriam embora, mesmo deixando sua cama ensopada, valeria a pena. Pegou o maior balde que encontrou, encheu-o de água e foi marchando decidida para seu quarto, mas para sua surpresa, não havia mais gato nenhum ali. Parada na porta do quarto com o balde em mãos cogitou estar então ficando maluca, ou talvez fosse isso tudo um sonho. Suspirou e virou-se para sair do quarto novamente quando deu de cara com os sete gatos todos espalhados pela sua casa e olhando diretamente para ela, no susto, derrubou o balde em si mesma, a água derramada foi se espalhando até encontrar as patinhas de um dos gatos sentado à sua frente e foi recebida com uma sacudidela da pata, um miado de reclamação e uma fuga para outro cômodo da casa.

Enquanto enxugava toda a água derramada no chão e os gatos a olhavam incansavelmente como se estivem julgando o quão bem ela estava fazendo tal tarefa, alguém bateu à porta. Levantou-se para atender e quando abriu a porta, percebeu que todos os gatos sumiram, achou estranho, mas pensou que talvez agora tenha se livrado dos gatos. No chão em frente a sua porta estavam dois sacos bem grandes, um de ração para gatos e outro de areia também para gatos, olhou de um lado para o outro no corredor, mas não encontrou sinal de ninguém que poderia ter deixado aquilo ali. Colocou os sacos para dentro, e, quando fechou a porta, todos os dez gatos apareceram ali aos seus pés miando estridentemente, arranhavam o saco de ração e mordiam seus tornozelos, uns começavam a subir nos móveis ao redor para conseguirem miar mais perto de sua face. Pensou que talvez estivessem com fome, não queria encorajá-los a permanecerem em sua casa, mas também não aguentava mais tanto assédio. Separou alguns potinhos e colocou água e comida para todos que finalmente pareceram se acalmar. Fez carinho em um deles que se aproximou e começou a se roçar em suas pernas, assim até que eles eram bem fofinhos, pensou.

Virou-se para sala, onde somente conseguiu olhar estatelada enquanto um dos gatos derrubava seu vaso de cristal de sua estante. Cínico, a olhava fixamente com seus grandes olhos verdes enquanto uma de suas patinhas redondas empurrava delicadamente o vaso ao chão da sala. Ouviu também um barulho estranho, como um engasgo, quando percebeu outro dos gatos em cima de seu sofá branco cuspindo uma enorme bola de pelos, ainda outro fazia xixi em seu tapete felpudo rosa bebê que tinha custado uma fortuna, e não queira nem saber o que ela achou embaixo do sofá após procurar pelo estranho cheiro que havia sentido. Começou, então, a arrumar, limpar e ajeitar sua casa para poder acomodar os quinze gatos misterosos. A casa definitivamente não estava à prova de gatos.

Em meio ao caos, com gatos correndo por toda a parte uns atrás dos outros, algumas briguinhas isoladas, vários miados de pedidos de atenção, barulho de coisas caindo, sendo derrubadas, sendo arranhadas, Helena se encontrava ajoelhada no chão, gotas de suor caindo pelo rosto, os cabelos desgrenhados, com dois ou três gatos observando ela esfregar seu querido tapete com esperanças ainda de recuperá-lo quando ouviu outra vez alguém batendo à porta, levantou-se devagar soltando um grunhido de dor e reclamação, tirou um pouco do pó nos joelhos e foi andando até a porta já esperando que todos os gatos se escondessem, mas dessa vez, não fugiram, foram na verdade se acumulando em volta da porta esperando que Helena a abrisse. Era seu namorado, a relação já estava desgastada, na verdade, Helena já não o suportava mais, começou a encontrar vários padrões tóxicos em sua relação quando começou a se aprofundar mais no feminismo que há tanto admirava, já não via graça nas piadas homofóbicas ou quando ele tentava controlar suas roupas, a quantidade de bebida e até mesmo suas amizades. Estava cansada, mas o relacionamento já existia há anos e não sabia o que fazer para finalizá-lo. Ao ver os quase vinte gatos rodeando Helena, seu namorado se assustou, mas mesmo assim deu um passo entrando na casa, acabou pisando no rabo de um dos gatos que reagiu com um miado histéricos e diversas arranhadas em sua perna, ao olhar em sua volta com sua perna sangrando a casa infestada de gatos e totalmente desorganizada, ele decidiu que não dava mais, terminou a relação ali mesmo e foi embora batendo a porta.

Estatelada, Helena permanece em pé parada em frente à porta por alguns segundos antes de abrir um grande sorriso. Resolve, então, tomar um banho para se deitar e descansar, deixaria o resto da bagunça para depois. Após um banho quentinho meticulosa e cuidadosamente observado por alguns gatos que pareciam um pouco confusos através do box do banheiro, Helena se deita em sua cama quentinha, com seus vinte e três gatos espalhados pelo quarto. A maioria em cima da cama, deitados sobre suas pernas, um em cima de sua cabeça, alguns pendurados pelos móveis. Em paz, Helena sorri, faz carinho em um dos gatinhos mais perto, fecha os olhos e dorme.

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