Senhor Afrânio
Lilian era uma dona de casa comum, com seus problemas
comuns saía para comprar legumes na feira, voltava para casa para preparar o
almoço das crianças, lavar a louça e arrumar os filhos para irem ao colégio,
dava um beijo na testa de cada um e lá iam eles contentes e saltitantes para a
aula, às vezes não tão contentes, emburravam um pouco, reclamavam, mas iam
mesmo assim. Então, voltava para seus afazeres, sempre tão ocupada, arrumava a
casa, varria, passava pano, como essas crianças fazem bagunça! Cansada sentava-se
no sofá para assistir um pouco de televisão, era quando acontecia, todo dia na
mesma hora tocava o telefone, ela ia correndo atender e sempre perguntavam
sobre um tal de senhor Afrânio, nas primeiras vezes ela foi educada e disse que
era engano, mas a pessoa não entendia, então, explicava, não existe nenhuma
pessoa com esse nome aqui nessa casa. Nos dias seguintes a pegavam no meio da
faxina, um pouco mais irritada, respondia rispidamente: Não! Não tem ninguém
aqui com esse nome. Mas era só o que faltava! todo dia isso, como se já não
houvesse problemas suficiente na cabeça para se preocupar, Júlio não estava
indo muito bem no colégio, estava quase repetindo, Maria estava tendo problemas
com o professor de Educação Física, aquela menina preguiçosa! E o casamento já
não ia tão bem, o marido parecia cada vez mais distante, frio, quase
inalcançável.
Naquele dia fatídico de calor e sol forte, sem nenhuma
nuvenzinha sequer no céu azul, Lilian se sentia esgotada, estava deprimida e já
não tinha mais forças para continuar com aquela rotina insuportável, se sentia
vazia, incompleta, sozinha e não sabia direito o porquê, toca então o telefone,
era uma mulher insistindo para falar com o Senhor Afrânio, Lilian já irritada
responde aos berros que não existe nenhum Senhor Afrânio e repete cada vez mais
enfurecida que não existe nenhum senhor Afrânio, onde já se viu, senhor
Afrânio! Senhor Afrânio!
Senhor Afrânio! O senhor tem que tomar o seu remédio,
nós já conversamos sobre isso antes, só assim o senhor vai se sentir melhor.
Disse a enfermeira. Senhor Afrânio para e olha ao seu redor em seu quartinho na
casa de repouso como se procurasse alguma coisa, olha para baixo e responde que
vai tomar o remédio, tudo bem, é só que ele se sente muito sozinho às vezes.
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