O caso do menino desaparecido

Eu estava em minha casa tomando meu café, remoendo lembranças, pensamentos e angústias, lamentando minhas próprias escolhas durante meu percurso nessa vida quando o telefone tocou. Era Bertrão, empresário rico que conheci enquanto ainda trabalhava como policial, já o livrei de algumas confusões e escândalos, estava com uma voz estranha e falou que iria logo ao assunto, sempre foi um homem muito seco e ríspido e nunca pareceu se importar em comprar as pessoas com seu dinheiro, contou-me que seu filho havia sido raptado e que não acreditava que a polícia iria resolver isso logo, que tempo era dinheiro e que não gostava de chamar atenção, se a imprensa soubesse disso  poderia prejudicar seus negócios, então me pediu para que resolvesse o caso da maneira mais rápida e discreta possível em troca de uma grande quantia de dinheiro, é claro. Não hesitei em aceitar, pedi informações sobre o garoto, mas ele não parecia saber muito, disse que tinha treze anos, era magricelo e tinha cabelos castanhos, encaracolados, um pouco compridos e estava sempre com um boné enfiado na cabeça, era um tanto quanto nerd e vivia no computador, a única hora em que não estava no computador era quando ia a uma banca de jornal para comprar histórias em quadrinhos ou coisas do tipo.
- E seu nome? – perguntei.
- Ahn... Júlio! – falou entusiasmado quando finalmente pareceu lembrar.
Você não pode culpá-lo por não lembrar direito o nome do próprio filho ou pelo fato de saber muito pouco sobre ele, Bertrão é um homem de 50 anos que já teve 4 esposas e tem pelo menos um filho com cada uma, não sei ao certo, e também é muito focado no trabalho, acaba não tendo muito tempo para a família. Contudo, parece-me que Júlio é seu filho com a esposa atual e que ela estava muito desesperada e o obrigou a tomar medidas extremas, ele não parecia muito satisfeito, porém acatou ao pedido da mulher.
Comecei a investigar pela única pista que Bertrão me deu, a banca de jornal. Ao chegar à banca me deparei com uma pessoa bem estranha, um homem pálido com dreads no cabelo, roupas multicoloridas, sandálias marrons encardidas nos pés e uma grande barra de chocolate na mão, era o dono da banca, André, tinha uns 30 anos e era um hippie conhecido por andar por aí falando sozinho, não cheirar muito bem e ser vegetariano, embora minhas fontes jurassem que já o viram devorando um hambúrguer em uma lanchonete do bairro.
- Você conhece algum menino de treze anos chamado Júlio que vem aqui sempre comprar histórias em quadrinhos? – perguntei ao hippie.
- História em quadrinhos, não. Mangá. – retrucou.
- Então você o conhece?
- Sim, sim. É um dos meus melhores clientes.
- Quando foi a ultima vez que você o viu?
- Não me apego ao tempo, simplesmente vou vivendo, o que são dias, horas, minutos? São coisas que os homens inventaram para viverem nesse mundo capitalista...
- Eu pareço interessado no seu discurso hippie? – interrompi – Me diga logo quando...
- Tá bom, não precisa ficar nervoso, isso é tudo culpa do capitalismo que deixa as pessoas nervosas assim. Olha, se eu me lembro...
Parou de falar e começou a fazer algumas caretas estranhas, tremer e espumar um pouco pela boca. Havia uma característica de André que eu tinha esquecido, ele era vidente, tinha algumas visões esporadicamente, nada muito importante, previa apenas se ia chover ou fazer sol, a morte de algum gatinho ou coisa parecida. Após acabar sua performance, exclamou:
- Eu tive uma visão! Olhe embaixo daquelas revistas do Batmam!
Verifiquei a pilha de revistas do Batmam, embaixo dela estava um bilhete: “Estamos com seu filho. Para ver seu filho novamente retire 1 milhão de dólares da sua conta, coloque em uma maleta atrás da banca de jornal, vá até a estação ferroviária e pegue o trem das 11”. Indaguei André sobre como ele sabia que o bilhete estava ali e ele começou a me contar a história de quando ele teve sua primeira visão aos doze anos e que tinha esses poderes sobrenaturais desde então. André disse que gostava muito de Júlio e, portanto, faria o que estivesse ao seu alcance para ajudar.
Resolvi, então, ir à casa de Bertrão, André disse que iria comigo, mas antes parou para pegar sua bolsa de palha cheia de barras de chocolate que André explicou que eram para um lanchinho caso ficasse com fome. Chegamos à casa de Bertrão que parecia tranquilo fumando um charuto sentado em sua imensa poltrona, perguntei sobre sua esposa ele me disse que ela estava muito nervosa então a mandou para um spa. Embora tenha achado isso muito estranho, esse não era meu papel ali, expliquei sobre o ocorrido e lhe disse que achava melhor para segurança de seu filho que seguíssemos o que o bilhete dizia e que eu iria acompanha-lo para que, caso percebesse algum suspeito ou alguma coisa estranha, eu já estivesse lá para proteção, mas que o principal era recuperar seu filho em segurança e que depois investigaria mais para descobrir o culpado por tudo isso. Bertrão não parecia muito feliz de ter que levantar da sua poltrona, mas disse que tudo bem. Fomos ao banco, retiramos o dinheiro e colocamos atrás da banca de jornal. Em seguida, fomos à estação ferroviária, já estava tarde e o trem das onze iria chegar logo, não havia mais ninguém além de nós três, eu, Bertrão e André. André parecia nervoso e comia as barras de chocolate uma atrás da outra sem parar, o trem vinha se aproximando, falei a Bertrão que não se preocupasse que eu entraria no trem junto com ele. Quando o trem parou e as portas se abriram, Bertrão virou para mim e disse para acabarmos logo com isso que ele tinha mais o que fazer e se apressou para entrar no trem, eu me inclinei para entrar no trem quando André gritou:
- Não! Não entre no trem! Eu tive uma visão!
Fiquei espantado e parei na hora, as portas se fecharam e o trem foi embora com Bertrão dentro dele. Fiquei lá parado em pé por uns cinco minutos quando Andre se aproximou e disse que era melhor eu me abaixar e, então, ocorreu uma explosão enorme, o trem foi estraçalhado em múltiplos pedaços que voavam em várias direções. Eu estava deitado ao lado de André cobrindo meus ouvidos acreditando mesmo na vidência dele quando dois pés calçando tênis importados se aproximaram de mim. Levantei-me e dei de cara com Júlio com seu boné enfiado na cabeça e os cachos saindo por debaixo do boné.
- Por que você salvou ele, seu hippie desgraçado? Agora vamos ter que dividir o dinheiro com ele também, vou tirar o dinheiro da sua parte!
André parecia arrependido, estava com a cabeça baixa e murmurou um tudo bem meio tristonho. Seguimos para a banca de jornal onde Júlio pegou a maleta e me entregou o dinheiro.
- Isso é o suficiente para você calar a boca?
Parece-me que vou ter muitas mais lembranças e escolhas erradas para remoer na hora de tomar meu café.

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