CORVO

A noite está fria e sombria, chove e venta bastante, então, fecho as janelas e os ramos das árvores se chocam contra o vidro da janela incansavelmente fazendo ruídos assustadores que se espalham pela casa vazia, com os móveis empoeirados, as paredes rachadas e a pintura descascando.
Sentada em minha poltrona velha e manchada, puída, desfiada e um tanto cansada dos longos anos de existência bebendo um copo de vodca barata, ouço um estrondo na janela, como alguma coisa mais pesada que os ramos das árvores batendo contra o vidro com força, levanto-me para verificar, mas paro ao ouvir a porta se abrir. Ao virar me deparo com um homem grande vestindo uma capa preta com capuz que cobre completamente seu rosto deixando aparecer apenas uma barba espessa e negra e com um machado na mão, dá um passo à frente e, pingando da chuva, molha todo o meu chão. Permanece alguns segundos parado, depois vem em minha direção correndo, grunhe e finca o machado entre meus olhos. Vou caindo enquanto meus olhos fitam essa figura grotesca.
O sangue quente escorrendo.
Tudo vai escurecendo. 
Vou ficando gelada. 
Sinto um gosto amargo na boca.
Ouço um corvo corvejando. 
Acordo de súbito, um vento gelado bate na minha face, devo ter cochilado na poltrona, quando levanto para fechar a janela, apoio meu copo numa mesinha e percebo um corvo parado me olhando no parapeito, a porta se abre de novo de modo repentino, entra o homem de capa preta e capuz novamente correndo em minha direção e finca o machado entre meus olhos.
O sangue escorre.
Tudo escurece.
Sinto frio.
O gosto amargo na boca. 
O corvo corveja.
O copo cai da minha mão e acordo assustada, começo a tremer de frio, quando olho para frente o corvo está no tapete da sala, inquieto anda de um lado para o outro, olha para mim e olha para porta, antes que eu consiga me levantar o homem abre violentamente a porta, o capuz cai e seu rosto se revela, o corvo voa em direção à sua face e começa a bicar seu olho, o homem se atrapalha e solta um grunhido de desespero, deixa seu machado cair e o corvo arranca seu olho, o sangue escorre através de suas mãos que tentam estancar o sangue e, atordoado, foge deixando seu machado para trás. Enquanto observo o corvo bicar o olho arrancado, começo a me sentir tonta, tudo começa a girar e caio da poltrona.
Minha visão vai escurecendo.
Sinto o chão gelado.
O gosto amargo na boca.
Dessa vez não parece que vou acordar.
E o corvo corveja satisfeito.

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