Eu não quero não amar

 

“De que vale um poeta?... um pobre louco
Que leva os dias a sonhar?... insano
Amante de utopias e virtudes
E, num templo sem Deus, ainda crente?”

UM CADÁVER DE POETA - Álvares de Azevedo


Dentro de mim há um poeta ultrarromântico sedento por novos amores, mas eu o sufoquei por tanto tempo que eu não consigo mais acreditar no amor (ultra)romântico. Esse meu pequeno poeta costumava ser meu escape, meu deus do céu, quantas foram as situações imaginadas na minha cabeça, os delírios, as histórias de amor perfeitas (considerando, obviamente, que eu sou uma ultrarromântica, mantenham em mente que o drama, o desencanto, o desalento e o grotesco fazem grande parte dessas histórias, mas sempre com aquela dualidade etérea, pura e angelical, que para mim, honestamente, apenas trazem a verossimilhança, nem tudo é mau ou bom o tempo inteiro, a vida é feita de acontecimentos e sentimentos bons e ruins) que nunca tinham fim, se repetiam na minha mente dias e noites sem fim, bem reais ou completamente surreais, todas tinham uma coisa em comum: o romance. Tinham. Não têm mais. Foram todas completamente esmagadas pelo peso da realidade que me atingiu como um murro na cara: o amor (ultra)romântico não existe. Ponto. Tudo que eu já vivi na minha realidade, não foi nada disso, e sim: 1. Obsessão dele. 2. Obsessão minha. Que agora acabaram (assim espero), e eu fui deixada com um grande e pesado Nada. Não tenho esperança alguma de sentir esse tipo de amor novamente, aquele experimentado na minha imaginação, que agora se recusa a delirar incessantemente dia e noite sem parar. E agora eu tenho esse buraco negro maldito sugador de energias no lugar dessa parte da minha vida. Todo o resto está okay (no sentido de: consigo lidar). Mas essa parte não, e eu não sei como preenchê-la. Eu encho esse buraco de ilusões e delírios desde meus dez anos de idade (que eu me lembre), apaixonada por um colega de turma de quem eu não sabia nada a respeito (eu não sei, ele deve ter me tratado bem ou alguma coisa assim), mas lá estava eu, jogada pelos cantos, fazendo poemas na minha cabeça, sofrendo por alguém que não tinha ideia disso, e nem nunca teve, tem coisa mais ultrarromântica do que isso? Um amor idealizado nunca concretizado, uma admiração à distância, um amor juvenil, tenro e puro. Não faço a menor ideia do que aconteceu com ele, mas lembro de seu nome até hoje. E eu fui assim por toda a minha juventude e vida adulta. Vários amores, que ninguém nunca teve conhecimento, nem a pessoa amada, nem minhas amigas, nem ninguém. Todos deram desastrosamente errado, quanto mais ativamente eu participava do romance, mas desastroso era o final. E estava tudo bem. Isso nunca havia me derrubado, era só mais matéria-prima para os meus delírios e para os meus textos. Eventualmente, a vida seguia normalmente, e eu arranjava mais alguma vítima que provavelmente não teria nenhum conhecimento sobre meu amor, porque ultrarromântico de verdade ama de longe, não concretiza nada para não perder o encanto e sofre sozinho, seja com um amor de verdade ou um inventado. Mas, um belo dia, eu virei para o meu Álvares de Azevedo interno e falei: Não. Chega. Isso não é real. Isso não vai acontecer de novo. Você não pode, não deve e não conseguirá mais nenhuma conexão assim. E foi isso. E agora estamos eu e ele olhando para o abismo sem fundo que me parece bem puto querendo ser alimentado. Precisando de amor, conexão, admiração, um delírio, uma idealização, uma ilusãozinha qualquer. E eu quero alimentá-lo, Álvares, acredite. Eu só não consigo mais. Não dá.

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