O melhor que já tive
“There was this boy who tore my heart in two
I had to lay him eight feet underground”
Goin’ Down - The Pretty Reckless
A noite é fria,
coberta por uma neblina espessa e misteriosa, alguns pingos de chuva pesados
grossos caem em meu rosto, misturam-se às minhas lágrimas, tornando gelado o
que era quente. Ajoelhada ao chão em meio à grama e à lama, cavo com minhas
próprias mãos, o mais fundo que eu conseguir, mesmo que me doam as mãos, mesmo
que os dedos congelem, mesmo que minha visão fique cada vez mais embaçada,
minhas roupas cada vez mais encharcadas, minhas pernas cada vez mais
enlameadas. A cova precisa ser funda, onde não mais possa encontrá-lo, onde não
mais possa resgatá-lo. O cansaço, a dor da alma e a dor física se misturam
entre si, assim como a lama, a chuva, as lágrimas, dando origem a um imenso
vazio, um buraco, profundo e grande o suficiente para se enterrar um corpo. Não
mais o quero em minhas paredes, me assombrando, caminhando pela casa,
sussurrando incessantemente para que sua lembrança seja constante. Seu lar
agora será uma floresta densa, fria e distante, aonde meu péssimo senso de
direção não consiga retornar, nem mesmo que eu queira, não conseguirei lembrar.
Com as mãos trêmulas,
de frio, cansaço e arrependimento, empurro seu corpo na cova mais profunda que
pude cavar para que nem mesmo se retornar dos mortos consiga me encontrar. O
corpo putrefeito, já se decompondo, completamente irreconhecível, onde larvas
já faziam abrigo, cai pesadamente e ali fica como se sempre tivesse pertencido.
Junto minhas últimas forças, com os olhos inchados e as mãos geladas, cubro de terra seu corpo uma vez tão vivo, tão quente, tão cheio de planos e sonhos, mas já faz tanto tempo, nem consigo me lembrar, mal consigo ver seu rosto e seu sorriso, não distingo mais o que foi sonho, ilusão ou realidade. Se alguma vez fomos felizes, não me lembro mais, não posso mais, preciso continuar minha vida, meu passado foi enterrado. Não há mais volta. Jamais.
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