Mantis demorosa

Quando certa manhã Bárbara acordou de sonhos intranquilos, decidiu matar todos os homens com quem já havia transado. Obstinada, levantou-se abruptamente de sua cama, escovou seus dentes com força olhando firmemente para o espelho em sua frente com olhos pesados cheios de olheiras que já haviam visto de tudo. Um cuspe certeiro dentro do ralo da pia. Eles me pagam. Fez seu café como o habitual, preto, forte, sem adoçar. Entornou a xícara de uma só vez. Um leve espasmo na boca ao engolir o líquido quente lhe forneceu um ar ainda mais maníaco. A pálpebra também tremia, incessantemente. Eles vão ver só. Vestiu sua blusa preta, sua calça preta, suas meias rosas com desenhos de unicórnios e arco-íris e seus coturnos pretos. Pegou a carteira, as chaves e o celular, um casaco porque poderia ficar frio, amarrou-o na cintura e saiu porta afora rapidamente, deixando a porta do apartamento bater com um estouro atrás de si. Voltou e abriu a porta novamente assustada: esqueceu de dar um beijinho de despedida na gatinha. Fique comportada, Mabel. Mamãe já volta. Mabel permanece imóvel, gorda e exuberante deitada em sua caminha rosa e felpuda. Não parece se incomodar com a energia maligna e perturbadora que emana de sua tutora empesteando a casa.

Bárbara se dirige à loja de machados, quer arrancar as cabeças de todos os seus ex-amantes. Um por um, separá-los de seus corpos imundos para que paguem por seus pecados e sejam assim purificados. Não, pensando bem, vão todos para o inferno mesmo, não tem jeito. Vai andando pela rua freneticamente com a cabeça baixa anotando em um caderninho os nomes dos homens que pretende exterminar, os que consegue se lembrar pelo menos. Os demais são nomeados como Carinhas 1, 2 e 3. 

Eu sei quem são. Esbarra em alguém, mas não para, continua sua caminhada a largos e pesados passos, cheia de ódio.

Finalmente chega a seu destino, esbaforida, cabelos desgrenhados, bochechas vermelhas e um olhar horripilante. Abre com força a porta que bate na vitrine com um estrondo. Todos na loja se viram para olhar Bárbara entrar pela loja e se dirigir a um vendedor específico parado em frente a alguns machados que pareciam ser bem pesados com cabos bem compridos. Quero um desses. Não acho esses adequados para uma mulher. Bárbara retira um dos machados pendurados na parede. Ponderando, parece concordar com a afirmativa do vendedor. É mesmo meio pesado, abrutalhado, meio difícil de se carregar. Mas será que funciona?

Com apenas um golpe, Bárbara leva o vendedor ao chão. As pessoas na loja gritam e correm desesperadamente pedindo por ajuda, enquanto a mulher continua a afligir vários golpes cada vez mais fortes no pescoço do homem que jorra sangue para todos os lados. Assim que a cabeça se destaca de seu corpo, Bárbara para, se endireita e limpa o sangue caindo em seus olhos com suas mãos, espalhando ainda mais o sangue pelos seus longos cabelos verdes que também são tirados do rosto. Até que funciona bem. Coloca o machado de baixo do braço, pega o caderninho de nomes em seu bolso tentando atrapalhadamente não deixar nada cair. Risca um nome. Carinha 1.

Sai arrastando o machado desajeitado pelo asfalto da rua enquanto as pessoas se afastam em horror. Menos um.

Bárbara segue sua jornada de vingança. O verde de seus cabelos parece se estender agora também para seu tom de pele. Por baixo de todo o sangue, percebe-se manchas verdes se alastrando por sua pele. A caminho de seu ex mais tóxico de todos, ela avista o Carinha 2 em um encontro romântico e bem público com uma magra, padrão, cabelos lisos e sedosos, pele brilhosa e um sorriso encantador. Bárbara se aproxima, e todos param para olhar boquiabertos aquela estranha figura esverdeada pingando sangue  com um machado nas mãos. O carinha 2 continua em seu encontro não percebendo ainda sua presença. A mulher mais linda do mundo em sua frente repara a mulher esquisita agora bem perto, congela e só consegue assistir estatelada Bárbara golpeando com a parte de madeira a cabeça de seu par de beleza bem mais ou menos e pouco interessante que cai de cara na mesa derrubando sua cerveja. Agora com a lâmina, Bárbara golpeia o pescoço do homem, espirrando alguns jatos de sangue na beldade que continua imóvel com meio sorriso do outro lado da mesa, até que a cabeça do homem se separe de seu corpo que cai como um saco de batatas no chão enquanto uma pequena multidão incrédula se forma ao redor para assistir a cena. Bárbara, então, risca mais um nome de seu caderninho e continua sua trajetória, desviando dos espectadores que formam agora um grande círculo ao redor do corpo decapitado tirando algumas fotos e selfies com seus celulares.

Chegando a uma pequena casa amarela na esquina da rua, ela para e respira bem fundo. Bate na porta e espera pacientemente a mulher que grita que já está indo. Limpa seus grandes olhos amarelos esbugalhados do sangue escorrendo antes de a mulher abrir a porta gritando em espanto com a figura bizarra parada em sua frente. Bárbara pega a mulher pelos ombros e a tira delicadamente do caminho. Rafael, seu corno. Ela grita enquanto pisa forte em sua direção, arranca o fio do videogame que Rafael está jogando da tomada e só então é percebida por ele que se levanta bruscamente do sofá e tenta fugir em vão, pois acaba encurralado em um canto da casa. O barulho do machado quebrando a televisão faz marido e mulher começarem a gritar histericamente. Ele tenta parar um dos golpes de Bárbara, mas acaba tendo sua mão decepada. O sangue sujando todo o chão que acabara de ser limpo. Bárbara, eu nunca quis te trair, foi sem querer. Todas as 34 vezes? Outro golpe arranca sua outra mão. A esposa aos prantos colada na parede. Rafael quis falar mais alguma coisa, mas Bárbara já tinha ouvido o suficiente. O golpe seguinte lhe arranca a cabeça que rola pelo chão já não mais tão limpo, e o corpo vai logo em seguida. A mulher grita continuamente ainda aterrorizada. Ao passar por ela, Bárbara pede uma caneta emprestada. Deve ter deixado a sua cair do bolso.

Agradece, risca mais um nome e sai pela porta deixando pegadas de sangue pela casa.

Menos três.

Bárbara caminha em direção a uma pequena igreja do bairro. Talvez queira confessar seus pecados e pedir perdão, antes que seja tarde demais. Sentado em um banco da pracinha com um cigarro de maconha aceso na mão e os olhos semicerrados quase dormindo se encontra um cara alheio a seu destino fatal. Tarde demais. Bárbara está parada em sua frente olhando de cima para baixo com suas longas pernas esguias. Ela sempre foi alta assim? O machado brilha à luz da lâmpada sombria da praça e atravessa rapidamente o pescoço do Carinha 3 com um corte limpo. O corpo sentado jorrando como uma grande fonte de carne e sangue. Risca mais um nome de seu caderninho, e suas quatro pernas a levam rapidamente à igreja que está lotada no meio de uma missa.

No púlpito, um padre prega incansavelmente sem parar sobre os males que o feminismo traz ao mundo, falando como todas as feministas são bruxas satanistas abortistas que merecem morrer. Bárbara solta seu machado que cai no chão com um estalo ecoante, sobe agilmente pelas paredes até o teto e percorre todo o salão até descer em um só pulo atrás do padre. Todos os fiéis começam a correr e gritar e pedir por misericórdia. Ela arranca a cabeça do líder católico com suas próprias mãos. Finalmente calado. Bárbara se delicia comendo sua cabeça enquanto toda a igreja foge horrorizada.

Agora, com todos os nomes riscados de seu caderno da matança, Bárbara suspira aliviada. Estica bem suas asas e voa atravessando o vitral da congregação em um estrondoso estampido, deixando cacos para trás. No céu, ela consegue ver de longe a lua, bem cheia e brilhando sem parar, junta seus longos e finos braços ensanguentados e agradece à deusa pela doce vingança. Louvada seja.

Sua gata Mabel observa tudo pela janela distante do pequeno apartamento. Inafetada.

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