Édipo
Era um sábado à noite e lá estava eu indo para mais um encontro com mais um carinha desses aleatórios que se acha pela internet. Já tinha ido a encontros desse tipo demais para ficar animada, mas pelo menos iria sair de casa e beber umas cervejas. Chegando no ponto de encontro me deparo com ele, blusa branca e calça jeans larga reta. Deus, por que homens insistem em usar esse tipo de calça? Já não está dando, pensei comigo mesma. Acho que ele reparou porque a primeira coisa que me perguntou foi se eu achei ele muito diferente da foto, se era mais feio. Claro que sim, todo mundo é mais bonito no mundo virtual, mas eu não consigo me acostumar com a feiura das pessoas no mundo real, pensei, mas em vez disso respondi com um comprido não com a voz fina ficando cada vez mais fina até sumir completamente no meio da minha falta de coragem de falar a verdade.
Sentamos num barzinho para beber, pensei que de repente a aparência melhorasse com um bom papo e algumas boas cervejas. Não dava para eu estar mais errada. O papo era chato, arrastado, sem graça, achou também uma boa ideia ficar comentando sobre minha aparência, reparou na quantidade de pelos no meu braço, as cicatrizes na minha mão, toda e qualquer imperfeição, só não reparou a sua própria falta de noção e a minha falta de alegria em estar ali.
Talvez se eu beber um pouco mais. Não, continua chato. Um pouco mais. Não, continua feio. Mais uma cerveja não faz mal. Até que ele não é tão ruim assim, até pediu mais uma cerveja para mim. Mais um pouquinho só. Vamos? Vamos, não tenho mais nada o que fazer mesmo.
Chegamos na casa dele e fomos logo para o quarto, nos beijamos e eu comecei a achar que talvez tudo isso não tinha sido uma ideia tão ruim assim. Os beijos foram ficando mais intensos, as mãos corriam pelo corpo, alisando, agarrando, nós dois suspirando deitados na cama e lá se vai a minha blusa...
-Seu filho sabe que você tem piercing nos mamilos?
Eu encaixada por cima dele, parada, olhando bem para seus olhos pensando como diabos eu respondo a uma pergunta dessa, feita numa hora dessa. Ele, percebendo o estranhamento que a pergunta me causou, tentou amenizar:
-Se minha mãe tivesse piercing nos mamilos eu ia achar muito legal!
Tá bom, Édipo. Me chama de Jocasta e vamos acabar logo com isso que eu tenho que voltar para a minha casa e repensar as escolhas da minha vida. E volto a beijá-lo.
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