Vênus
Deitei em minha cama, pronta para dormir, mais um dia cansativo tinha se passado e eu estava pronta para me entregar à escuridão e ao sono para poder dar um pouco de descanso à minha alma cansada. Fui fechando meus olhos lentamente me rendendo à doce paz que o sono poderia me trazer, mas assim que minhas pálpebras se encostaram, senti um peso no meu peito seguido de um miado estridente, abri os olhos espantada e vi tudo preto e dois olhos verdes penetrantes me fitando por alguns segundos até uma boca se abrir e soltar mais uma vez um miado bem alto e comprido mostrando bem a língua rosada. Era uma gata preta deitada confortavelmente em cima de meu corpo e parecia me exigir alguma coisa. Levantei-me e fiquei sentada na cama ainda observando essa gata que me apareceu no meio da noite que agora tinha saído do meu peito com o meu movimento de levantar e estava sentada agitando seu rabo felpudo de um lado para o outro parecendo um pouco impaciente até miar novamente, dessa vez com um miado ainda mais alto e mais longo. Pensei que deveria estar com fome e respondi à gata como se ela pudesse me entender que eu iria procurar alguma coisa para ela comer então. Joguei minha coberta para o lado, coloquei as pernas para fora da cama, mas quando fui me levantar em vez de encontrar logo o chão com a sola dos meus pés comecei a cair numa escuridão sem fim, achei aquilo tudo muito estranho, não lembrava do chão ficar tão longe assim da minha cama e, pensando bem, nem mesmo lembrava de ter uma gata.
Quando finalmente parei de cair me vi sentada em um amontoado de folhas e gravetos, um pouco de musgo parecia começar a crescer em uma de minhas mãos que encostava no chão, sacudi-a um pouco tentando me livrar do musgo e tentando entender onde eu estava até que a gata caiu em minha cabeça, foi rolando até o chão um pouco mais à frente de mim, deitada, olhou para um lado e para o outro e começou a se lamber. Enquanto a gata fazia sua limpeza, parei para olhar ao meu redor e percebi que me encontrava em uma floresta, com árvores tão altas que eu mal conseguia ver o céu. Levantei-me para observar melhor toda essa imensidão verde que parecia mágica, as folhas se mexendo com o vento passando, os raios de sol passando entre as frestas das folhas, tudo era tão lindo e calmo até ser interrompido novamente pelo miado fino e alto da gata, olhei para baixo e lá estava ela com seus negros pelos agora limpos e brilhantes e grandes olhos verdes me fitando, virou-se e começou a correr quase que saltitando por um caminho entre as árvores e resolvi segui-la, afinal, ela parecia bem confiante de si mesma.
Ao final do caminho encontrava-se um riacho com águas cristalinas cercado de pedras e mais verde. Em uma das pedras havia uma mulher nua, com lindos cabelos longos e negros que iam formando ondas até encostarem na água corrente do riacho e se perderem de vista. Ela tinha um pente de dentes largos em uma de suas mãos e passava-o nos cabelos tentando penteá-los completamente em vão já que seu comprimento se perdia pelas águas do riacho enquanto cantarolava uma melodia suave de olhos fechados. Ao me aproximar, ela percebeu minha presença, parou de cantarolar e abriu seus grandes olhos verdes e me encarou por alguns segundos antes de se levantar e ir se aproximando de mim, andando bem devagar enquanto seus negros cabelos começam a flutuar como se não existisse mais gravidade. Uma luz forte começou a brilhar por trás dessa beleza etérea que estava vindo até mim. Comecei a me sentir cada vez mais nervosa, ela estava cada vez mais perto de mim, cada vez mais alta, cada vez mais imponente. Até que ela parou, se abaixou um pouco para seu rosto ficar bem colado ao meu, colocou sua mão de toque suave e macio em meu queixo e sussurrou:
-Tudo vai ficar bem.
Encostou seus lábios macios, quentes e úmidos nos meus agora gelados de pavor e me beijou apaixonadamente, fechei meus olhos e me deixei levar por aquele sentimento de paz que ela agora me transmitia, tudo ficou preto e em meu peito eu sentia um quentinho, minha mente era tranquila. Até um miado forte e estridente quebrar tudo isso.
Abri meus olhos e vi minha gata em cima de mim, miando com fome. Levantei-me da minha cama, e, dessa vez, meus pés logo tocaram o chão. Vênus foi correndo na minha frente até seu pote de ração. Peguei o saco de ração e comecei a encher seu potinho enquanto cantarolava uma melodia estranhamente familiar, mas que não conseguia me lembrar de qual canção era.
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