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RUMINANTE

Eu gostaria de não lembrar das coisas que eu vi Eu gostaria de esquecer Queria não ser tão observadora Queria não ter pegado as informações  E as transformado em uma verdade avassaladora   Por isso, finjo que não me machucou Que não desmoronei Caindo dentro de mim mesma Num completo e absoluto ermo   Volto aos risos e aos sorrisos Às histórias e aos cataclismos Como se nada em mim tivesse rompido Se alterado por completo e finito Depois de ter sido acertada em cheio Por um grito, em alto e bom tom, Me dizendo que Não. Não sou perfeita, não sou bonita, não sou inteligente, não o suficiente, não fui escolhida, não sou a favorita, não posso, não quero, não consigo, não entendo e não acredito.   Mas não desisto. Sigo o fingimento, o teatro do contento Enquanto se passa aqui dentro A ruminação de todo evento

DESILUSÃO

  “And oh, can’t you see? I am delusional with love” Cough It Out - The Front Bottoms   Chega. Jogo todos os meus remédios privada abaixo, puxo a descarga enquanto olho fixamente a água enchendo. Nao dá mais para ser assim, apática, letárgica, os olhos secos como pedra, as mãos frias. Eu quero sentir amor de novo. Estranho, não era para a água já estar descendo? Isso não é um bom sinal. Água e comprimidos transbordam e escorrem pelo banheiro molhando o tapetinho, não dá mais para secar os pés. Isso não pode ser bom. A vida continua, as contas para pagar, os problemas para resolver,   as responsabilidades para evitar, o trabalho maçante todos os dias sem parar. Vejo passando pela rua um homem alto, cabelos encaracolados, sorriso bonito, estou apaixonada. Preciso desse homem para mim e só para mim, ele é perfeito, como assim ele já tem alguém? Nao há ninguém melhor para ele do que eu. No dia seguinte, eu posso jurar que aquele sorriso bonito foi para mim, clar...

Ciúmes

Eu ia deixar pra lá Cabou que nao consegui Aqueles ciúmes Ainda nao digeri   As cartas dizem pra Seguir em frente Tudo vai dar certo Mas sinto que o tarô mente   Meu amor cresce e cresce Fica difícil diminuir Pra caber na caixinha Do saudável Do aceitável   A doida na história certa Vira heroína A bruxa na história errada Acaba queimada   Pelos próprios ciúmes De dentro para fora Começa no peito Acaba na garganta E, num grito, chora

Amaldiçoado seja

Eu espero que pense em mim o tempo inteiro E que eu lhe assombre a todo momento Espero que veja minha face por onde quer que passe Que lembre de mim e isso lhe mate Que amaldiçoe o dia em que decidiu não me querer   Mas isso não vai acontecer Você vai seguir em frente Sem nunca nem perceber Que perdeu o amor da sua vida   Talvez um pequeno incômodo Lhe acompanhe todos os dias Latejando atrás dos seus olhos Uma pontada no coração De vez em quando lhe ocorra Para sempre se perguntando o motivo Sem nenhuma resposta, nenhuma esperança Para todo sempre a vida segue Sem mim.

Ameno

Falei que estou apaixonada E que ver ele apaixonado por outra Está me matando   Falou que gosta de mim E sente minha falta   Mas que lindo sentimento ameno Pena que não me afaga Eu aqui transbordando E você pingando   É pouco, tão pouco É morno E não mata minha fome   É gota de chuva caindo calma Em cima da expelida lava De um vulcão adormecido Que explodiu sem aviso   É o mar me engolindo por inteira Entre uma onda atrás da outra E você molhando os pés na beira   É a contínua depressão crônica Me afundando na minha cama Vendo o tempo passar E você uma lágrima deixar rolar   É o amor que arde nas minhas entranhas A loucura que me deixa insana A alma saindo do meu casco vazio E você entediado num domingo   Não é suficiente Não cura minha doença Não é resposta para a prece dessa poeta Num templo sem deus, ainda crente.

Queima lenta

Imagem
  Atracked to the sadness in your eyes Like a moth going right into the lights Banging and banging over and over again Into your glassy eyes from the crying You’ve done last night   *         Acordei na cama e você sentado ao lado da janela fumando seu cigarro, a tristeza de seus olhos tenta sair desesperadamente, mas você não a deixa ir, a carrega pra todos os lugares, inclusive ali e agora, após uma noite regada a beijos e vinho tinto, lá estava ela, brilhando em seu olhar. Há uma certa beleza poética nisso tudo, eu sei. Mas o dia a dia deve ser excruciante. Sempre ali prendendo com força sua tristeza atrás de seus olhos nunca a liberando, a escondendo de todos a todo custo. Lembro-me da primeira vez que a vi, seus grandes olhos castanhos redondos aterrorizados de medo de que eu tivesse descoberto seu segredo. O seu olhar deve ter durado um milissegundo, mas foi suficiente para me puxar para a escuridão da sua alma e ver de p...

ADDICTED

  You got me addicted to you To your love and your attention And then you pulled it out It’s not fair It’s not fair to me When every single cell of my heart Wants you And you’re not there for me It’s not fair It’s not fair to you If I am an addict to your love   But you should just let me in again, baby Just let me into your life and I swear I’m gonna make it all right Just let me sink my teeth Into your soul to suck it out Every little tasty drop Just to make me feel for now Like I’m finally whole again   And as the blood runs down my chin I promise you: you will be fine Just let me live through your eyes It’s not my fault that you’re dying It’s not fair to me It’s not fair to me

GRAÇAS A DEUS

Eu sei exatamente o momento onde tudo acabou Você proferiu aquelas horrendas palavras Habituais e sem peso nenhum para você E lágrimas correram dos meus olhos Pelas minhas redondas bochechas ingênuas Você não entendeu E eu não expliquei nada, apenas chorei Tudo estava acabado ali mesmo Ainda assim não tive forças para terminar Não queria ser forte, queria colo E você não pôde me dar Ainda bem, pois Não teria lhe deixado ir Se você não tivesse ido por si mesmo Se não tivesse sido escroto A ponto de ofender tudo em mim E tudo com que mais me importo Eu não teria lhe deixado ir Se você não tivesse ativamente fugido de mim Se não tivesse virado tudo que eu mais abomino E graças a Deus! Dessa vez ao Deus cristão sanguinário que eu tanto odeio Esse livramento eu boto na conta Dele mesmo Graças a Deus você se foi E eu não tive que ser forte Eu pude desabar E achar colo em outros lugares Achar o entendimento que você não pode me dar Eu nã...

Mantis demorosa

Quando certa manhã Bárbara acordou de sonhos intranquilos, decidiu matar todos os homens com quem já havia transado. Obstinada, levantou-se abruptamente de sua cama, escovou seus dentes com força olhando firmemente para o espelho em sua frente com olhos pesados cheios de olheiras que já haviam visto de tudo. Um cuspe certeiro dentro do ralo da pia. Eles me pagam. Fez seu café como o habitual, preto, forte, sem adoçar. Entornou a xícara de uma só vez. Um leve espasmo na boca ao engolir o líquido quente lhe forneceu um ar ainda mais maníaco. A pálpebra também tremia, incessantemente. Eles vão ver só. Vestiu sua blusa preta, sua calça preta, suas meias rosas com desenhos de unicórnios e arco-íris e seus coturnos pretos. Pegou a carteira, as chaves e o celular, um casaco porque poderia ficar frio, amarrou-o na cintura e saiu porta afora rapidamente, deixando a porta do apartamento bater com um estouro atrás de si. Voltou e abriu a porta novamente assustada: esqueceu de dar um beijinho de d...

Estranho

Bem-vindo ao Estranho, um mundo onde ser estranho é algo bom. Não importa se seu cabelo é preto ou roxo, se você é alto ou baixo demais, magro ou gordo em demasiado. Aliás, o mediano é que é estranhado. A pior coisa nesse mundo seria ser igual a todo mundo. Modificações corporais extremas são incentivadas. Quanto mais peculiar e mais específico seus gostos são, melhor. Os rejeitados de outros mundos se unem aqui para viverem em paz, para serem celebrados e reconhecidos em seu esforço de não se encaixar. O esquisito e o grotesco encontram seu lar, seja nojento, seja asqueroso, bote medo em quem passar. Todos são livres para se expressarem através do feio, da destruição, do terror e do horror. Não há religião, não há regras e não há governo. Torne-se detestável e ingovernável, veja se alguém aqui se importa. Seja tudo o que você quiser, só não seja mais do mesmo. Livre-se do belo antes de adentrar por nossas terras amaldiçoadas e você ficará bem. Ou talvez não. O clima aqui é sempre cinz...

Taverneira maldita

  Marsala se encontra novamente sentada em um banquinho duro de uma bancada em uma taverna qualquer com um ambiente duvidoso e porcamente iluminado bebendo sua bebida favorita: uísque barato. A sua energia já anda baixa há algumas semanas, mas ela vem empurrando esse momento inevitável com a barriga porque o detesta com todas as forças. Ela precisa achar algum homem para sugar as energias, mas para isso deve iniciar qualquer tipo de contato sexual com tal homem, o que sempre lhe é penoso ou, no mínimo, tedioso. Séculos e séculos sem fim sobrevivendo apenas para experimentar sexo meia-boca com homens insossos que mal lhe forneciam a energia sexual necessária de tão ruim que era a transa. Mas que existência miserável! Suspira. Já um tanto bêbada, ajeita seus longos cabelos negros e cacheados com as mãos tirando-os do rosto para procurar pela taverna por seu próximo alvo, mas volta rapidamente sua atenção ao copo de líquido marrom reluzente à sua frente. Nada de interessante par...

23 Gatos pretos

  Quando certa manhã Helena acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama rodeada de gatos. O estranho disso tudo era que Helena não tinha gatos, nunca teve gatos, nunca nem gostou de gatos. Ainda assim, agora sentada em sua cama, estava na companhia de cinco gatos, todos pretos, alguns a fitando sem parar com seus grandes olhos amarelos, e outros apenas dormindo tranquilamente enrolados em si próprios e parecendo incomodados à medida que ela se mexia para levantar. Saiu de sua cama devagar e cuidadosamente com medo de desagradar algum dos bichinhos misteriosos para poder ter uma visão geral do que estava acontecendo na tentativa de entender o que diabos estava acontecendo ali. Tentou espantar os gatos abanando as mãos e entonando “xô, xô”, bem de longe ainda com um leve receio dos bichanos se enfezarem e corressem atrás dela, mas isso não teve efeito nenhum sobre os gatos que continuavam ali como se nada estivesse acontecendo e como se sempre estivessem ali. Com um “x...

Phasmophobia

Chegou o dia da mudança, depois de muita procura, eu finalmente tinha achado a casinha perfeita em um lugar afastado de tudo e de todos que cabia no meu orçamento. Finalmente, teria paz. O dia inteiro foi bem corrido e cansativo, e as caixas ainda se amontoavam por todos os cômodos da casa que já vinha com alguns móveis velhos dos antigos donos. A casa toda tinha um ar meio macabro, ainda mais agora sem a luz do sol. Alguns cômodos não tinham lâmpadas, os móveis antigos cobertos com lençóis empoeirados, algumas teias de aranha aqui e ali, o som da mata lá fora, tudo isso junto começava a criar um pequeno frio em minha barriga, que logo descartei, besteira minha, pensei. Virei em um corredor e dei de cara com uma foto bem sinistra pendurada na parede, nela, dois velhinhos e uma criança claramente endemoniada, a coisa começava a ficar séria. Decidi, então, dormir, minhas sinapses não estavam em sua condição normal obviamente, pois já estava certa de que a casa era pelo menos um pou...

FOME

Sentado no chão gelado da cozinha, bem à sua frente um prato vazio, sem nenhum sinal de comida, nem uma migalha sequer, já faz quinze minutos desde sua última refeição. Claramente não se importam mais com ele, a barriga ronca de fome, a fraqueza toma conta, com seu último suspiro, sai um miado. Um humano se aproxima e repõe a ração no pratinho. Mais uma crise evitada. Da próxima vez não esperará tanto, antes que a fome fique insuportável, já estará miando.

Heresia/sacrilégio

Eu quero que você me adore Nem que seja por um só momento Nem que seja só por uma noite Que você acenda uma vela em meu altar  Que entoe cânticos em meus ouvidos Que eu seja sua religião Que apenas naquele momento Você se torne pagão e não mais cristão  E ofereça a mim a sua devoção  E dance em volta da minha fogueira Enquanto ri maniacamente Me ofereça sacrifícios Sacrifique-se a si mesmo  Tudo em meu nome. Que amanhã nem volte mais, Mas que hoje eu seja sua Verdade E se doe de carne e espírito para mim Para que eu faça o que quiser com sua alma E depois te force a rodar o mundo Pregando minha doutrina para todos Pra que também se devotem a mim Por uma noite apenas Ou por toda a eternidade sem fim

Nunca tão só

  Deitada na cama, afogada na solidão da escuridão, tenho o pressentimento de que não estou tão só. Ouço alguns passos leves, uma sacola se balançando, arranhões pelas paredes, uns rosnados suspeitos... Logo, vários pares de olhos cintilantes começam a surgir no meio do escuro brilhando e me fitando em julgamento. Os gatos estão com fome.

A porta estranha

  Ela se aproximou de uma porta estranha e, nervosa, pegou a chave em seu bolso. Ela respirou fundo, destrancou a porta, parou e, então, a abriu. Para seu horror, ela viu milhares e milhares de baratas circulando por todos os cantos, todas as paredes, umas por cima das outras, dava para ouvir suas patinhas correndo de um lado para o outro, dava para sentir aquele cheiro forte indescritível emanando delas. E ela ali parada, atônita, apenas a observar o movimento desses insetos tão asquerosos, tentava se lembrar que porta era aquela que ela adentrou e por qual motivo a chave para tal porta estaria em seu bolso, tudo parecia estranho e desconexo demais, mas antes que ela pudesse tirar alguma conclusão, algumas baratas começaram a subir por suas pernas, outras começaram a voar em sua direção se emaranhado em seus longos cabelos e se esperneando perdidas em seus cachos, ela se debatia e tentava afastar as baratas em vão, tentava gritar, mas não conseguia, sua voz apenas não saía. Virou-...

Divagações sobre relacionamentos em uma sexta-feira quente e chuvosa.

  Sexta-feira, a noite é quente e chuvosa, nada de novo sob o céu desse Rio de Janeiro, me encontro largada no sofá com os olhos estatelados vidrados no nada, apenas apreciando o meu cansaço pós-trabalho que me dói as pernas, me dói as costas e me dói a mente, e a chuva caindo lá fora. No telefone celular, chega uma mensagem, queria te dar uns beijos hoje, diz a mensagem, e começo a me questionar o que teria acontecido no mundo, que tipo de situação bizarra teria que acontecer, para eu sair do meu pequeno Cachambi até Niterói, de onde é o remetente da mensagem, de noite, cansada, sozinha, na chuva. A vontade é de responder com o que tenho a ver? Mas a mente divaga antes que eu possa tomar a decisão do que responderei. Começo a pensar que talvez essa vida de solteira que desejei tanto após onze anos de longos relacionamentos sérios, longos eu digo no sentido de tediosos mesmo, talvez, não seja mais para mim. Me encontro velha, cansada e sem saco para nada, aquela minha vontade de me...

Ele sou eu, e eu sou dele

  Ele sou eu, e eu sou dele Carrego as minhas dores e as dele Vivo através dele e ele através de mim Me atravessa por inteira Carregando um pedaço de mim Em seu olhos me reconheço E nos meus estará para sempre Do mesmo jeito que lá no começo Desde lá do meu ventre Eu sou eu, e eu sou dele Ao seu lado quero sempre estar A olhar e observar E para sempre amar Ele sou eu, e ele é meu

Eu não quero não amar

  “De que vale um poeta?... um pobre louco Que leva os dias a sonhar?... insano Amante de utopias e virtudes E, num templo sem Deus, ainda crente?” UM CADÁVER DE POETA - Álvares de Azevedo Dentro de mim há um poeta ultrarromântico sedento por novos amores, mas eu o sufoquei por tanto tempo que eu não consigo mais acreditar no amor (ultra)romântico. Esse meu pequeno poeta costumava ser meu escape, meu deus do céu, quantas foram as situações imaginadas na minha cabeça, os delírios, as histórias de amor perfeitas (considerando, obviamente, que eu sou uma ultrarromântica, mantenham em mente que o drama, o desencanto, o desalento e o grotesco fazem grande parte dessas histórias, mas sempre com aquela dualidade etérea, pura e angelical, que para mim, honestamente, apenas trazem a verossimilhança, nem tudo é mau ou bom o tempo inteiro, a vida é feita de acontecimentos e sentimentos bons e ruins) que nunca tinham fim, se repetiam na minha mente dias e noites sem fim, bem reais ou...